segunda-feira, 22 de outubro de 2007

UMA PRENDA INVULGAR

O dia estava a ser difícil. Duas funcionárias estavam de baixa, havia o correio por organizar e, para cúmulo, o motorista ainda não aparecera e já passava das 11h-00. Como uma desgraça nunca vem só os telefones não paravam de tocar porque tinha havido uma avaria, num terminal, e era um pandemónio daqueles que ninguém se entende.
Estava a olhar para a confusão em que estava o gabinete quando, finalmente, o motorista chegou. Era um homem dos seus 40 anos, seco e eficaz. Tinha o vício dos copos, absolutamente incompatível com as funções que exercia e, para além disso, tinha vários ofícios com que procurava colmatar as dificuldades da vida e sustentar uma família numerosa. Falávamos pouco mas eu sentia que ele não gostava de mim. Porém, naquela manhã, ele decidiu ser explícito quando lhe pedi para fazer algumas entregas. Olhou-me directo nos olhos e disse-me de forma clara e desafiadora: - Desculpe que lhe diga mas não gosto de si. Acho-a uma pessoa fria, vaidosa e autoritária. Bem, e até lhe digo mais: também não gosto de ser mandado por uma mulher. Depois de refrear uma resposta que poderia sair arrevesada, limitei-me a perguntar: - O seu partido não defende a igualdade entre homens e mulheres? - Defende, mas são outras mulheres diferentes da doutora. São mulheres que lavam a roupa, fazem comida e criam os filhos. Mulheres que arregaçam as mangas, entende? Não respondi e logo ele acatou as minhas indicações sobre as voltas que tinha que dar pelas diferentes sucursais. Mas fiquei triste quando ele saiu. Aquelas palavras doeram-me de sobremaneira. Porque eu tinha a consciência que iniciara uma segunda etapa de vida em que regredira como ser humano. "Guerreiro", o motorista, não tinha sido o único a criticar-me. As emoções ainda estavam frescas quando, passados uns três dias, "Guerreiro" apareceu perdido de bêbado. Ele era useiro e vezeiro no vício dos copos mas, naquele dia, o homem estava mesmo de todo. Se fosse apanhado pelo controlo da alcoolémia teria uma valente punição e podia até ser despedido. Mal pensei e eis que do Grupo 8 me telefonam a perguntar se podiam mandar subir a equipa de controlo de alcoolemia. Não havia como sair do edifício sem passar pela portaria e, por isso, num acto de completa impulsividade, dei ordem à equipa de alcoolemia para regressar sem fazer os testes. Esta atitude, e por se tratar de uma empresa onde se colocavam questões de segurança, deu brado em tudo o que era sítio. Duas horas depois não se falava noutra coisa. E as opiniões dividiam-se: havia os que achavam que eu tinha tido grande coragem e generosidade, outros achavam que eu era uma irresponsável sem perfil para aquele cargo, e outros iam ainda mais longe dizendo que nunca deviam ser nomeadas mulheres para certas funções.
Por sorte o instrutor do inquérito era amigo e o castigo limitou-se a uma repreensão escrita que apenas me prejudicou na avaliação de desempenho imediata. "Guerreiro" esse mudou por completo. Daí em diante passou a ser a minha sombra e a consagrar-me uma devoção comovente. E embora lá fosse bebendo o seu copito nunca mais deu aso a uma situação como aquela. *************************************************************
Passados seis anos eu estava de partida. Tinha-me despedido de toda a gente, alguns com quem convivi mais de duas décadas, e o gabinete estava vazio. Uma coisa me preocupava na hora de partir. Era a situação do Guerreiro. As empresas são autênticas arenas onde as pessoas se degladiam. Um mundo que me desumanizou e do qual não sinto saudades. Porém todos aqueles que não conseguiram dobrar-me iriam ter no "Guerreiro"um alvo fácil. Além de beber uns copitos era comunista e sindicalista ferrenho. Tudo isso o tornava extremamente vulnerável.
Pensava nisto enquanto me ocorria que não me despedira de um grande amigo por não ter conseguido encontrá-lo. Claro que lhe podia telefonar e encontrarmo-nos noutra altura mas, naquele momento, tinha pena que ele não estivesse ali. Pego no resto dos pertences e eis que o meu amigo "AF" abre a porta do gabinete. Vinha esbaforido mas respira fundo quando me vê.
- Ainda bem que ainda consegui apanhar-te! Sabes é que eu pensei que tinha que te arranjar uma prenda mas tinha que ser uma coisa que tu gostasses mesmo. Sei que não gostas de flores nem essas coisas que normalmente as mulheres gostam e, por isso, decidi dar-te isto.
E estende-me um papel que olho perplexa enquanto ele acrescenta:
-Passei todo o dia na Administração e na Direcção de Pessoal para conseguir transferir o "Guerreiro" para o meu departamento. Não queria que te fosses embora com essa preocupação!
E os olhos turvaram-se-me quando o abracei.

21 comentários:

Tiago R Cardoso disse...

Mais um grande texto...

sabe nem sei que diga... já sei adoro a sua escrita.

quintarantino disse...

E emendou-se de vez, o Guerreiro?

NINHO DE CUCO disse...

QUINTARANTINO
Não, não se emendou.Mas o meu colega quando ficou com ele, sob a sua alçada, sabia que ele não se emendava. Mas já estão a trabalhar juntos há mais de 3 anos.

Laurentina disse...

Lindo ...sem mais palavras
Bem haja
beijão grande

adrianeites disse...

bela estoria!

Sei que existes disse...

Que grande atitude e lição!
Beijinhos grandes

ruy disse...

Gostei,abraço,ruy

7 Pecados Mortais disse...

Mais uma vez a tua faceta humana revelou-se. Como não se pode cuspir para o ar, talvez o guerreio tenha aprendido a lição(de forma moderada), mas também ninguém tinha-o chamado à "terra" como o fizeste. Foste "presa" por ter e não ter o "cão", pelos teus colegas, mas a tua integridade como pessoa revelou-se perante os "abutres" do escritório. O importante foi a tua consciência e o que me parece é que "bêbada" ela não estava. E como não estava, ainda conseguiste curar as "ressacas " de outros, pois no fim tudo fizeram para ter o "Guerreiro". Guerreira foste tu, porque enfrentaste o exército e isso só me faz pensar que eras uma líder de destaque e condutora de Homens. Apesar da represália que tiveste, isso não te afectou e não julgaste o "Guerreiro". Não se pode realmente julgar ninguém, pois estamos começados, mas não estamos acabados e não sabemos o nosso dia de amanhã. Não foi no mundo da bola, mas no teu Mundo real, conseguiste ser a "Special One". Os grandes homens não se destacaram apenas pelas palavras, mas sim, pelas atitudes e tu estiveste com atitude. Abraços.

JOY disse...

Olá ,

Ainda bem que existem pessoas assim no mundo.
Mais um belo texto.

JOY

Simplesmente...Joana disse...

e mais uma vez, pela segunda consecutiva, esta aqui uma mostra que de facto ha pessoas fantásticas :)

Cada vez gosto mais de aqui vir :)

Beijooo

Até já!**

João Rato disse...

E assim um blog se vai fazendo livro. Aguardo o próximo capítulo.

Keops disse...

Pois é caríssima, há muita gente por aí!PESSOAS cada vez menos!Estas vivências mais que testemunhos são intensos e perenes abraços de alma!

Crítica e denúncia disse...

Querida amiga, você foi recomendado por alguém que eu não digo o nome, para escrever um texto e enviar lá para o S.O.S miséria página "sugestões". Tema miséria a escolher pelo teu bom gosto.

Bjim e te aguardo.

Alda

Zé Povinho disse...

Os conflitos entre a razão e o coração, na hora da decisão, revelam o carácter das chefias e bastas vezes fortalecem a dedicação e o empenho das equipas.
Abraço do Zé

António de Almeida disse...

-Não tenho muito para comentar. Apenas dizer que gostei do texto, e do conteúdo humano da história. Um pormenor, um verdadeiro líder afirma-se por defender os seus, gostei particularmente do episódio do controlo de alcoolémia, até por já ter vivido uma situação algo parecida, estava eu no serviço militar, já lá vão mais de 20 anos. Talvez um dia a conte.

David Alves disse...

Excelente texto...

Vladimir disse...

Qual é a sua opinião sobre a desconfiança?

NINHO DE CUCO disse...

Há um ditado que diz: "O bom julgador por si se julga". Quem não confia não é de confiança. Há pessoas que não a merecem mas há outras, extraordinárias, pelas quais vale sempre a pena acreditar.

Paulo Sempre disse...

Dá que pensar....
Paulo

Dalaila disse...

Fiquei pregada a mais este texto,...

C Valente disse...

Gostei,, a narrativa prende
saudações amigas