segunda-feira, 26 de novembro de 2007

CLASSES E PRECONCEITOS

Não devia haver classe sociais. Aliás sempre achei que não havia. Não pertencemos todos ao género humano sem distinção de raças ou de credos? Por quê então considerar pessoas como sendo do outro lado? Como não fazendo parte da família humana? Era assim que eu pensava mesmo quando via grandes diferenças na forma como viviam certas pessoas. Tinha pena que fosse assim mas nunca subestimei essas pessoas.

Talvez esta visão fosse muito ingénua e eu demasiado bem intencionada. Porém a vida tratou de me fazer menos boa e de mostrar-me que afinal existiam classes. E não só existiam como as pessoas as sentiam e se sentiam de maneira diferente.

E foi o meu marido que me ensinou tudo isso. E ensinou-me de uma maneira crua que eu não estava preparada para aprender. Porque acreditava no companheirismo que me levou a casar num dia 7 de Junho de um ano qualquer. Numa cerimónia no registo que não demorou mais que 7 minutos. Não levámos convidados e até nos esquecemos de levar padrinhos. Tivemos que arranjar dois voluntários à pressa que serviram para mim e para ele. Eu vestia as minhas jeans surradas bem diferentes do vestido de noiva tradicional mas estava quase feliz. Estupidamente feliz por procurar caminhar em sintonia com um desconhecido que, por uma razão qualquer, se cruzou num dado momento no meu caminho. Um momento de fragilidade, diga-se em abono da verdade. E em momentos de fragilidade ama-se o amor mais do que a pessoa.

Porém quando comecei a olhar para a pessoa e a interrogar-me sobre ela descobri que tinha medo. Medo do homem que tinha estado na guerra. Medo do homem que vinha medalhado e com cruz de guerra por ter matado. Olhava-lhe para as mãos e pensava que tudo me era estranho que não havia refúgio dentro de mim própria.

Este ser que me amava, ou que dizia amar-me, tinha dentro de si todo um conjunto de sentimentos tumultuosos. E eu estava no centro desse tumulto. Da paixão doentia que lhe despertava. Da sua submissão extrema e seus desvelos exagerados, do seu ódio profundo e do seu incomensurável sentido de revolta.

Se a aceitação entre mim e a família dele foi aberta e natural entre ele e a minha tudo foi diferente. Ele ia de pé atrás contra a família "burguesa," inimiga das pessoas como ele, e responsável de todos os males que lhe tinham sucedido. Ele defendia, com ódio, a desigualdade em que os ricos apareciam como verdeiros cafajestes que despojavam os pobres dos bens e da alma em proveito das suas futilidades. Era como se os meus pais e eu tivessemos a culpa que ele tivesse ido aos catorze anos para a escola e se formasse em economia e não em medicina como teria desejado.

Os ataques sistemáticos à minha família, a forma como gozava a minha mãe, tudo me doía sobremaneira, porque, mal ou bem, aquelas eram as minhas raízes por muitas e longas que fossem as paragens em sítios distantes.

E um sentimento, que antes não existia em mim, começou a criar forma. É que também agora eu odiava tudo aquilo que ele representava, os ideais que defendia e as coisas que gostava.

A minha capacidade de amar e compreender esgotava-se de dia para dia perante tanta intransigência. A minha sogra chamava-lhe a atenção mas ele não queria saber.

O que parecia vir a ser um relacionamento tranquilo passou a deslizar entre dois extremos: o de uma dedicação absoluta e de uma raiva latente pronta a explodir ao menor passo em falso.

E nada o fazia mudar. Nem mesmo o nascimento do filho. Apesar de excelente pai, colaborante nas tarefas e nas responsabilidades, ele vivia para me contrariar e, uma vez, frente ao meu filho, ousou bater-me quando o desafiei.

A partir daí começámos a viver com alguma independência. Eu tinha-me licenciado e estava agora numa posição profissional que me ocupava mais tempo fora de casa. E eu própria procurava prolongar esse tempo. Ele tomava conta da casa e deixava-me ir. Comecei a sair e mesmo a viajar sozinha porque com ele era um verdeiro tormento. Apesar disso o casamento durou 17 anos e as relações não passaram de simples amizades.

Às vezes dava comigo a desejar algo diferente a olhar para outros casais que passavam por períodos apaixonados. E interrogava-me como seria sentir algo assim. Algo sem forma nem objecto preciso coexistia comigo, sonhava e amava o infinito e sofria por não ser encontrado.

Porém não era infeliz. Encontrei uma forma de vida que, a determinada altura, quase me satisfazia. E quando pensei que a vida seria mesmo isso essa adaptação permanente, sem grandes sobressaltos nem contrapartidas, encontrei alguém que iria dar início a um novo ciclo.

Àlguém a quem quis de forma absoluta. Mas, ao contrário do que o meu marido me disse, não procurava no outro o mundo burguês da minha infância. Porque esse era um mundo do qual levei a vida a fugir.

25 comentários:

avelaneiraflorida disse...

Ninho de cuco,

Parei para a minha visita...e encontro um história de vidas!!!!
Pode-se viver entre duas existências???? Pode-se aceitar o que a sociedade considera ser os padrões ideais?????

"Brigados"...este post obrigou-me a voltar atrás no tempo!A voltar dentro de mim!!!!
Um resto de boa noite!!!!

ALEX disse...

Esta história é a hiatória de muitas vidas. E é também a história da intolerância da luta de classes protagonizada por um certo partido da extrema-esquerda.

quintarantino disse...

Uma história de vida pregada aqui de forma apaixonada e, simultaneamente, na sua realidade nua e crua.
Um dos males de muitas coisas na vida, mesmo de relações entre pessoas, é, a determinado momento ou desde sempre, não conseguirmos deixar cair alguns dos nossos preconceitos, não conseguirmos compreender que só cedendo e efectuando compromissos podemos aspirar a viver na sua plenitude um amor real.

Marreta disse...

Faz-me lembrar o Dr. Jivago...
Saudações do Marreta.

Miss Vader disse...

Acho que percebi.
O teu marido não gostava dos teus pais porque eles eram mais ricos?
E era doente por causa da guerra?

turbolenta disse...

Nos momentos de maior fragilidade emocional podemos tomar determinadas atitudes que nos podem magoar e deixar infelizes durante o resto da vida.
As pessoas muitas das vezes acomodam-se. Quer seja a nível profissional como pessoal. Acham que se aguentaram até ali, também o conseguirão no futuro.
Digam o que disserem, mas eu penso que uma abismal diferença de classes entre 2 pessoas que se amam e partem para um casamento (na plenitude do amor e entusiasmo), acabam, mais dia menos dia por não conseguirem resistir e ultrapassar todas essas diferenças.
Passaste muito tempo empenhada em manter um casamento(talvez pelo filho).Dedicaste-te de alma e coração à profissão(em desprimor da parte afectiva). Ninguém merece um sacrifício assim!
E quem "fez" a guerra colonial,quem teve de matar para não morrer, digam o que disserem- ficou com traumas incapazes de ultrapassar. Isso teve muita influência nas relações amorosas.Há tantos casais ainda a sofrer com isso!
Mas pelo que deduzo, finalmente, encontraste alguém que te faça feliz!
bjs
boa semana

Keops disse...

Olá! Respeito, foi o que senti pelo teu testemunho sentido, vivenciado. Entendo-o, não procuro justificações. Acho que também não deves fazê-lo. Não se pode alterar o passado, ponto acente. O presente, vive-lo intensamente. Isso que apelidam de futuro não será mais que uma consequência do dia a dia. Um beijo

JOY disse...

Ninho de Cuco

Louvo-te a coragem de partilhares essa história de vida ,ao contrário do que dizem o amor não supera tudo principalmente o preconceito,indeferença,
intolerãncia,amor é partilhar,dividir,compreender,cumungar,saber ceder,se assim não for está condenado.Espero que o futuro te seja mais risonho.

Joy

Tiago R Cardoso disse...

Brilhante, mais uma vez digo a amiga, brilhante texto.

Zé Povinho disse...

Muitas vezes é a própria vida que nos mostra o caminho a seguir, basta ter a coragem para o fazer. Fórmulas mágicas e certezas no relacionamento entre dois seres, não há.
Abraço do Zé

Compadre Alentejano disse...

É uma história de vida com uma luta de classes pelo meio. Mas é bom uma pessoa desabafar, fica mais aliviada e mais reconfortada, não é?
Espero que já tenhas ultrapassado totalmente essa fase da vida.
Desejos de uma boa semana.
Um abraço
Compadre Alentejano

contradicoes disse...

Este tipo de erros que se comentem na vida são sempre remediáveis pese embora deixem marcas algumas difíceis de apagar. Importante julgo é não repetir o erro o que julgo nem sempre acontecer.

Paulo Vilmar disse...

Oi!
Lindo texto, seco, cortante, mas lírico, sem penas nem culpas! Ele demonstra, mais uma vez, que quando não estamos a procurar, o amor se apresenta, quase sempre de forma inusitada.
Parabéns.
Beijos!

C Valente disse...

Como diz o amor não é tudo, porque o amor não era recíproco.
Tambem é habito dizer-se que o amor quando nasce é cego, é uma verdade pois não temos uma visão de tudo o que nos rodeia o que é lamentavel.
Quando se reconhece o erro , há que ter a coragem de procurar a liberdade (claro que isto é fácil para quem não está dentro)mas é essa a verdade,Coragem de cada um
Saudações amigas

Sniqper ® disse...

"E em momentos de fragilidade ama-se o amor mais do que a pessoa."

Uma verdade que poucos acreditam, mas que marca a sua presença na nossa vida. Por vezes aquela mão amiga que se estendeu num momento de fragilidade, irá ser a mesma que nos vai agredir sem razão.

Sofrer e chorar significa viver, escreveu Dostoievski.

Uma verdade e nada mais, fugir dela não adianta, sim olhar de frente para as tristeza e as alegrias e aceitar ambas com serenidade.
Só assim conseguimos ter força para viver e encontrar uma nova vida.

Gosto de te Ler.

bluegift disse...

Escolhi a mesma frase do sniqper: "E em momentos de fragilidade ama-se o amor mais do que a pessoa."

E quantas vezes a necessidade não nos tolda a razão? Pois é. Nós tendemos ao equilíbrio, mas por vezes ele explode de tanto nos querermos enganar para o manter.

Com a vida aprendemos que a desigualdade se paga cara, e que só a inteligência e abertura de espírito de ambos os lados a conseguem superar. Outras situações são pura ilusão.

C Valente disse...

Boa noite
saudações amigas

herético disse...

água mole em terra dura vai moendo café?

... mais preconceitos que classe(s)!

Fernanda e Poemas disse...

Olá amiga, um texto que dá que pensar.
Quantas vidas como a tua existe por aí, mas as pessoas não tem capacidade para se defender.
Adorei o textoooooooooooooooo
Beijinhos,
Fernandinha

São disse...

Só para deixar um abraço.

MIMO-TE disse...

Também estou surpresa...
Não contava, mas valeu muito a pena ler-te. Fica-me muito...mas saliento esta frase e este sentimento:

"Num momento de fragilidade ama-se o amor mais do que a pessoa"

Espantosa esta frase, porque define o que pode acontecer a qualquer um. Um engano, e logo no amor.

Sofrimento, dos dois. Ele porque sofre sentimentos de inferioridade que quer camuflar com atitudes de agressão verbal e mesmo física. Ela que sofre porque se vê amarrada ao ódio de algo que não tem culpa, mas que consegue (como tantas mulheres):) sobreviver e arranjar escapes, geralmente no trabalho. Excelente texto...:)

O texto continua? :) veremos :)
Optima partilha.:)

Antes dos meus mimos, queria pedir que voasses até ao meu blog, tenho algo que gostava que recebesses e participasses. Pode ser?

Beijo e muitos mimos

Pata Negra disse...

É lindo que se partilhem desta modo maior as coisas maiores da vida. Escrever bem de coração aberto faz bem ao próprio e ao próximo... (nota-se que andei no seminário?!)
Ninho de Cuco, e que tal se pensássemos que só temos uma vida, curta, diz-se, e que de pés assentes nas histórias passadas podemos construir novas histórias?
É fácil, vivência, coração aberto e partir a conhecer o desconhecido! Os vividos, quando vivos, só morrem quando perdem a vida e ás vezes nem assim!
- Estou a falar assim porque gosto da ouvir escrever assim, todas as vidas dariam belos livros se fossem escritas, todos os futuros darão belos romances... vou parar, posso não estar a medir bem as palavras e as palavras nestes meios são ainda mais...do que na...
Mas porque é que eu não digo apenas, Ninho gostei?!...
Um abraço palavroso

O Árabe disse...

Fascinante, Ninho, a tua forma de contar histórias... e as reflexões que tiras das páginas de tua vida! Quem dera, fôssemos todos capazes de assim aprender...

Laurentina disse...

Quando nos atrevemos a ter a leviandade de pensamos que só nós temos experiências de vida terríveis e marcantes eis quando se nos depara alguém com uma história de vida semelhante em quase tudo, quase porque a minha durou 22, onde os maus tratos psiquicos e mesmo físicos eram uma constante diária...porque durou tanto?!

Não sei nem quero pensar mais nisso, no entanto penso que por uma questão de acomodação e estupidamente tb por causa dos filhos...

Tb eu encontrei o AMOR verdadeiro de respeito e total companheirismo e partilha.

Desejo-te toda a Felicidade do Mundo minha querida amiga

Bom fim de semana
Beijão grande

7 Pecados Mortais disse...

Já não passo aqui há um tempo e peço desculpa. Mais uma vez li de forma apaixonado um testemunho de vida real. Realmente amou mais o amor do que a pessoa e num determinado tempo da vida (e não me esqueci, embora não tenho vindo aqui), tempo esse, numa época Natalícia. Correcto? Contudo queria dizer que realmente o seu ex-marido era um "pássaro" ferido como muito de nós, como eu por exemplo. Ele a meu entender possuia ou possui uma revolta muito grande com ele, que faz com que destrua tudo de bom que o rodeia. Não duvido que seja boa pessoa, pois acho que é, mas as feridas dele causaram outras. Um "pássaro" ferido demora muito tempo a aprender a voar outra vez, espero que ele consiga, mesmo fora da sua vida, pois o tempo, os erros cometidos ajudam-nos a crescer. Creio que a amiga, assim se posso lhe chamar, é uma grande mulher, com clareza perantes os que a leiam e sem receios. Admiro-a por isso, mesmo sem a conhecer. Espero que esse passarinho que conheceu, hoje já consiga voar.