domingo, 11 de novembro de 2007

FOI TARDE

Foram muitos os dias, vindos da infância, passados na quinta de uns tios meus, nos arredores de Faro. Era uma propriedade esplendorosa, que se estendia por montes arborizados, ostentando um laranjal que, em tempos, abasteceu as fábricas de sumol do Algarve. Ali, com o cheiro da terra, e o contacto com outras vidas, se fez a minha sensibilidade. Talvez esta forma de ser, sonhadora, tenha sido formada por um sol que se espraiva pelas encostas onde as árvores, e plantações, sobressaíam e por onde, muitas vezes, eu passava para ir no barco ancorado a escassos metros.
Poderiam ter sido dias, quase felizes, se eu não fosse da família dos patrões e se isso não me empurrasse para um lado da vida que eu não queria. Poderiam ter sido dias, quase felizes, se pudesse correr e subir às árvores como as outras crianças. Mas eu não era como as outras crianças e isso fazia-me sofrer.
Não conseguia gostar daquilo que queriam que eu gostasse. Não conseguia aprender piano nem ser menina de bem. Apenas queria viver. E viver com emoções fortes, como eu as sentia, sem ser indiferente ao que me rodeava.
Há sempre um acontecimento que altera a sequência de todos os que se seguem. Este deu-se, quando tinha 11 anos, e a minha tia apresentou a mais recente aquisição da propriedade. Tratava-se de um garoto franzino, de olhos grandes e redondos, uns dois anos mais velho que eu. Chamava-se Ilídio e vinha de uma terra alentejana, para mim, desconhecida. Apesar de me recomendarem uma certa distância, em relação aos trabalhadores, depressa me tornei amiga do Ilídio. Soube, assim, que ele tinha 9 irmãos e que passavam fome. Soube também da sua vontade de continuar a estudar. Passei a emprestar-lhe livros, que ele devorava, e ensinava-lhe algumas matérias que aprendia no liceu. Mas esta amizade inocente, que não passara despercebida aos meus tios, estava inevitavelmente condenada. O ensejo apareceu quando o Ilídio foi fazer umas compras para a lavoura. Acusaram-no de roubar embora eu acreditasse, piamente, que estava inocente. E, assim, numa tarde de Agosto, dois dias após eu ter completado 12 anos, Ilídio foi mandado embora com uma pequena trouxa onde cabiam todos os seus pertences. Tinha apenas 14 anos e chorava. Ainda o vejo a subir, sozinho, o morro dos montes, em direcção à paragem do autocarro que o levaria às suas origens. E ainda sinto a mesma revolta que me incendiou, na altura, e fez com que os meus olhos ficassem enxutos.
E foi, nessa altura, que jurei a mim própria que partiria. E que um dia iria procurar o Ilídio.
Porém foram precisos mais 6 anos para dar o primeiro passo. Tinha entrado na Faculdade de Direito e os meus pais compraram-me um renault 16 branco, novinho em folha. Porém, eu não via o carro mas a emancipação, que o meu pai me concedeu, para tirar a carta (a maioridade só se atingia aos 21 anos).
E, assim, quando parti para Lisboa, em vez da Faculdade, fui trabalhar. Os estudos ficaram para trás, os cursos foram outros e as condições de vida bem agrestes. A ginástica para sobreviver era difícil, como difícil era abdicar de tudo a que estava habituada. O curso era tirado à noite, com dificuldades acrescidas e, por vezes, mal alimentada. Pouco tempo depois casava-me com um colega de Faculdade tão pouco abonado quanto eu.
Porém, nunca deixei de procurar o Ilídio embora muito pouco soubesse sobre ele. Escrevi para diferentes autarquias, procurei em listas de recrutas mas os meus recursos eram agora muito limitados. Sem dinheiro nem influências muitas portas, que antes estavam abertas, se tornaram intransponíveis. Mas todos os esforços pareciam inúteis.
Com o 25 de Abril os trabalhadores foram abandonando a propriedade dos meus tios. Por mero acaso, encontrei um deles, em Lisboa, que me disse que o Ilídio tinha morrido tuberculoso mas que tinha tomado conhecimento que eu o procurava.
Em estado de choque ainda pergunto: - Mas se ele soube porque não me deixou encontrá-lo?
- Por vergonha, menina, respondeu o meu velho Mateus.
- Vergonha? Ele?
- Pois, o que é que a menina quer? Pobre é assim!....
Ah mas não haverá um mundo em que não haja pobres para serem assim?, pergunto a mim mesma. Porém esta interrogação espalhou-se pelo tempo dos muitos anos que se seguiram. Anos de avanços e recuos. Anos em que, depois da conquista, entreguei de mão beijada os meus troféus.
Sim, porque o mundo é grande e nós somos pequenos. E as distancias dentro de nós são curtas.

25 comentários:

Alma Nova disse...

É essa "quase felicidade..." que fica cá dentro e nos move para os caminhos que aí queríamos descobrir e estavam proibidos.
"Ah mas não haverá um mundo em que não haja pobres para serem assim?, pergunto a mim mesma."...e essa pergunta perdura, mesmo quando o mundo é grande e nós descobrimos a nossa pequenez...

Tiago R Cardoso disse...

Eu perante os textos que tem publicado fico sem palavras.

Brilhante a forma como escreve e principalmente o moral que se consegue tirar no final de cada uma.

quintarantino disse...

Estes textos deslumbrantes mereciam ser publicados na forma de livro!
Mais não digo.

Sniqper ® disse...

Não conseguia gostar daquilo que queriam que eu gostasse. Não conseguia aprender piano nem ser menina de bem. Apenas queria viver. E viver com emoções fortes, como eu as sentia, sem ser indiferente ao que me rodeava.

Que poderei comentar, após ter lido mais que uma vez o teu texto, que palavras poderei dizer, que frase poderei construir para expressar o que senti...
Só uma, continua, tens um interior rico, pleno de sentimentos, és humana.
Por isso tudo e pelo que ainda irei conhecer de Ti, peço-te um favor, não desistas NUNCA de transmitir pelas tuas palavras a riqueza que tens dentro de ti, o Mundo precisa de ajuda e só pessoas como tu o poderão salvar.

Keops disse...

OBRIGADO pela maravilhosa partilha!

António de Almeida disse...

-Sempre que passo por aqui gosto do que leio. Olhe que o livro merece ser ponderado!

turbolenta disse...

Mais um belo texto que demonstra bem a nobreza de carácter da sua autora.
Penso que naqueles tempos passados havia um maior conceito de diferenças de classes.Era suposto os ricos movimentaram-se em ambiente de gente rica a abastada, enquanto os pobres, esses, coitados, não passavam da cepa torta e tinham de conviver apenas com quem era igual a eles.
Mas os bons princípios, o sentimento de justiça social , penso que nasce já connosco. E muitas vezes, por isso, não conseguimos nem queremos assimilar as diferentes teorias que os nossos superiores nos querem impingir.
Pena que não tivesses ocasião de encontrar o teu amigo em tempo oportuno, quando tanto havia ainda para dizer entre ambos.
E penso mesmo que o estigma da pobreza, o afastamento de outras classes sociais, o deve ter sempre acompanhado, com um sentimento de culpa, de revolta e com sofrimento.
Mesmo muito pobres, todos têm direito a ser felizes, a poderem movimentar-se livremente, a lutarem pelos seus ideais e, sobretudo, serem felizes.
E talvez o teu amigo nunca tivesse conseguido , na verdadeira acepção da palavra, ser completamente feliz, apesar de ter nobres sentimentos.
boa semana

Papa disse...

Excelente texto. Moro nos arredores de Faro mas sou do Alentejo, onde passei a minha infância e adolescência.
No Alentejo, sempre houve famílias numerosas e com imensas dificuldades, de modo que os pais eram obrigados a mandar os filhos para as grandes herdades, os miúdos para trabalharem na agricultura e as miúdas para servirem como criadas.
Porca miséria...
Um abraço
Compadre Alentejano

7 Pecados Mortais disse...

Adorei! Mais uma vez e repetidamente confesso que me senti a ler um livro. Espero que pense nisso. Li o que geralmente já vi em filmes. Contudo alguns filmes em que se deslumbra o aspecto humano, este mesmo é tirando de exemplos verídicos como é o caso. Gosto mais de ler o verídico dito por si, pois nem que seja virtualmente, sei quem foi a protagonista de uma história verdadeira, linda, de encontros humanos e de uma capacidade de persistência em não esquecer aqueles que nos deixam marcas pela vida fora. Senti (mais uma vez) o grande coração que transporta. Que este dure muitos anos, pois merece. Transporta amor, carinho, solidariedade e paz consigo mesmo. Bem Hajas.

Zé Povinho disse...

Mais um belo texto. A pobreza que nos rodeia, muitas vezes não se manifesta por pura vergonha, e nós também não damos por ela entretidos com outras coisas a que damos mais importância, ainda relativa. A pobreza silenciosa e envergonhada, é quase sempre digna e mais atróz do que a declarada e bem visível.
Abraço do Zé

Fernanda e Poemas disse...

Minha Querida, fico sem palavras perante tão belo texto.
Adorei!!!
Beijinhos,
Fernandinha

Marreta disse...

Esta fez-me correr uma lágrimazinha no canto do olho...
Saudações do Marreta.

contradicoes disse...

Manda a boa educação que devamos retribuir e aqui estou a fazê-lo. Agradecer a visita e os comentários e claro está que é mais um link que vai engrossar com todo o gosto a já extensa lista dos preferidos. Bem depois de lido o texto e a reacção que o mesmo motivou aos comentadores,
estimulantes da continuidade, julgo nada mais ter a acrescentar. Passarei por aqui no meu giro diário para me inteirar das abordagens.

martelo disse...

acredite "cuca" que, na escrita, se faz tambem a vida... e de sensibilidades tambem, passa-se por esta vida e os gestos tambem se dissipam como o vento...

João Rato disse...

O sentir é das maiores riquezas que se podem ter, a capacidade de expressão dos nossos sentimentos é das maiores riquezas que se podem ter, a coragem de transformar a nossa sensiblidade em actos é das maiores riquezas que se podem ter!
Um humilde abraço Riquita!

C Valente disse...

Que linda narrativa, é estes taxtos que nos fazem navegar
saudações amigas com um beijo

Miss Vader disse...

olá. gostei da história.

PiresF disse...

“- Por vergonha, menina, respondeu o meu velho Mateus. “


A mesma razão porque tantos continuam a por termo à vida no Alentejo.

Gostei.

Diannus do Nemi disse...

.

Aprendemos mesmo é quando somos pequenos...

Gostei,
Beijos.

.

Um Momento disse...

Belos os teus textos...
De uma simplicidade e reflexão cativante

Beijo... em ti

(*)

Peter disse...

Gosto do que escreve e da forma como o faz. Também publiquei textos da minha vivida numa terra do Alentejo profundo, quando a radio era ainda uma novidade e eu frequentava a Escola Primária Oficial com colegas que andavam de pé descalço ...
Tempos que os jovens de hoje não compreendem, nem acreditam, nem aceitam, e aí fazem bem ...

O Árabe disse...

Ainda bem, amiga, que não te dedicaste apenas a um ninho de cuco... belíssimas são as tuas histórias! :)

Oliver Pickwick disse...

Entrei nesse blog movido pela curiosidade em relação ao seu apelido, Ninho de Cuco. Além de apreender mais a respeito desses pássaros, fiquei surpreso com a qualidade dos textos, inclusive, esta história comovente do menino da fazenda, aliás, um instrumento para medir o tamanho do seu coração e da sua generosidade.
Voltarei outras vezes, para ler mais.
Tenha a melhor das semanas.

Dalaila disse...

as dificuldades descritas por ti... são imensidões de sentimentos que tens....

Miss Vader disse...

Hello my friend have a good fim de semana!
:p Miss Vader manda BEIJINHOS